Episodio 1 – A Anatomia da Mentira

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Conheça um pouco mais sobre a anatomia da mentira. Descubra como ela é construída e como podemos identificá-la no nosso dia a dia.

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O primeiro episódio do Fintech Labcast traz um tema que é transversal a todas as áreas: a mentira. O professor da FGV, José Garcez Ghirardi, discute a anatomia da mentira, como ela é construída, como podemos fazer para evitar que mais e mais mentiras sejam espalhadas por meios das redes sociais e de que forma podemos viver e conviver nesta época da pós-verdade ou da verdade em construção. Conheça um pouco mais sobre a anatomia da mentira e aprenda como lidar com isso no dia a dia.

A mentira está presente em vários momentos de nossas vidas pessoais e profissionais. Afinal, ela é utilizada por muita gente, nos mais diversos momentos. Indo nesse contexto, e puxando ainda a pós-verdade, ou seja, uma verdade que ainda está em construção, o professor da FGV José Garcez Ghirardi explicou um pouco sobre a anatomia da mentira, como ela é formada e a forma que podemos identifica-la.

Ele argumenta que toda a mentira é trabalhada em cima da criação de um discurso, que muitas vezes acaba se tornando “verdade”, principalmente, pela proximidade que tem com a realidade. Sendo que essa é uma das estratégias mais utilizadas pelas manchetes clickbaits e mais ainda pelas Fake News. Para Ghirardi, para se reduzir essa propagação de mensagens, o ideal seria orientar que as recebe, para que busquem a realidade do fato e evitem divulgar informações que não são verdadeiras.

Esse debate e muitos outros mais, você pode encontrar ouvindo o nosso primeiro Fintech Labcast, que tem como tema a Anatomia da Mentira. Dá o play e vem saber um pouco mais com a gente!

Transcrição:

 

LOCUTOR: Olá a todos! Esse é o Fintech Labcast, o seu podcast sobre finanças, tecnologia e variedades. Hoje, vamos falar de um tema transversal a todas essas áreas: a mentira. O Fintech Labcast tem o patrocínio do Saxo Bank. Há 25 anos, transformando a maneira de investir, oferecendo acesso global ao mercado de capitais. Sim, vamos falar dela que todos evitam, mas que honestamente não conseguimos eliminá-la do nosso convívio: a mentira. Ou melhor, vamos falar da anatomia da mentira. Pois bem, será que em tempos de fakenews quem tem meia verdade é rei?

 

Para falar sobre isso, contamos com a presença do professor de Direito da FGV, José Garcez Ghirardi, o cara tem um currículo fora de série, mas para resumir: Ele é Pós-doutor no Collège de France e Mestre e Doutor em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês pela USP. Ele traz reflexões inesperadas sobre a sociedade, muitas delas registradas em seus livros como em “O Mundo fora de Prumo: transformação social e teoria política em Shakespeare”;

 

Professor Garcez, muito bem-vindo ao nosso podcast. É um prazer falar com o senhor, que quero saber se eu falei tudo ou tem algo que não esteja batendo em relação ao senhor, professor?

 

GHIRARDI: Sim, acho que é tudo verdade.

 

LOCUTOR: Será?

 

GHIRARDI: Muito contente estar aqui Léo, prazer falar com você.

 

LOCUTOR: Professor, vamos começar então, falando sobre esse assunto tão interessante. Eu quero saber o seguinte, o que constrói uma verdade obviamente além do próprio fato em si, do acontecido em si, mas o que que constrói uma verdade? É possível que uma verdade se torne mentira ou se torne algo inverossímil, dependendo da maneira como essa a verdade é contada?

 

GHIRARDI: Essa é uma pergunta muito interessante, Léo.  Acho que a primeira coisa que a gente precisa pontuar é que um fato em si, não é nem verdade, nem mentira. Um fato ocorre ou não ocorre. A verdade e a mentira são categorias do discurso, não são características dos fenômenos.

 

Por exemplo, se eu olho para a janela e falo: ‘tá chovendo!”. E se de fato estiver chovendo lá fora. Se considera que eu disse a verdade, porque o meu discurso se adequou ao fenômeno.

 

A verdade não é o fato que ocorre, mas a adequação do discurso. Então, isso é importante. Porque ela pertence ao discurso, é possível você dizer uma verdade que seja inverossímil, ou que se torne inverossímil pela forma como você está dizendo essa verdade, ou pelo contexto.

 

Deixa eu dar dois exemplos: Vamos voltar para o que eu falei da chuva. Se eu disser: “olha, tá chovendo” e eu estiver no meio do deserto do Saara, é muito possível que a pessoa vá falar: “você tá de brincadeira, não é possível que esteja acontecendo isso”. Porque a condição de credibilidade da afirmação, tá ligado ao conjunto de expectativas de quem recebe informação. Então, o conjunto expectativas de quem está no Saara não é de que chova, portanto, mesmo a informação verdadeira pode se tornar inverossímil.

 

Isso acontece também de uma outra maneira. Por exemplo, se você disser, em tom de brincadeira, para um amigo assim: “se você sair do bar agora, nunca mais falo com você”. Embora essa informação possa ser verdadeira, embora você possa realmente desejar nunca mais falar com ele, se ele sair do bar. O tom em que você coloca essa afirmação, faz com que ele entenda que isso não é para ser tomado como verdade.

 

Então, tem duas coisas importantes, que a gente deve pontuar nessa sua provocação Inicial. Primeiro: um fato não é verdade, nem mentira. Um fato ocorre ou não ocorre. Verdade e mentira é a adequação do nosso discurso ou não ao fato. E uma coisa que é verdadeira pode ser inverossímil e muitas vezes uma coisa que não é verdadeira pode ser muito verossímil.

 

Verdade e mentira são realidades do discurso, não são realidades da vida concreta, no sentido material (…) Portanto, a forma como a gente coloca isso é que faz com que algo seja crível ou não.

 

LOCUTOR: Mas o fato em si, uma vez que ele aconteceu, ele é incontestável. Quer dizer, efetivamente, se eu abro a janela e vejo que está chovendo, a chuva é a prova inconteste de que sim está chovendo. Então, eu não tenho como falsear a chuva, uma vez que a água esteja caindo do céu. Agora, a mentira, ela pode ser construída. Então, eu queria saber qual a importância da narrativa para que a mentira se torne crível, para que a gente acredite na mentira? A gente tá falando tanto de Fake News, nunca se falou tanto nessa expressão, nesse neologismo, que é uma palavra agora, dos novos tempos de fake News. A literatura que existe como ficção, ela pode trazer veracidade inclusive para as Fake News?

 

GHIRARDI:  Aí, você fala uma porção de coisas interessante, Léo. Mas deixa eu te provocar voltando para o início da questão. Já a verdade não é incontestável, o fato mesmo não é incontestável. isso é muito o que está no coração de um discurso importante, de um debate importante que a gente tem hoje, que é do fim da Verdade, ou da pós verdade.

 

Veja, você abre a janela e de fato está caindo água. Eu posso dizer: “não tá chovendo, tá garoando”. É uma coisa um pouco diferente, isso para um fenômeno bastante observável.

 

Agora, vamos supor, numa reunião, você fala: “ela foi muito simpática e eu falo ela foi muito antipática”. Qual é a verdade aí? São fatos a se observar. As atitudes da pessoa foram as mesmas, né? Então, o que é que tá acontecendo hoje, que tem complicado muito os debates, é que havia antes, vamos dizer assim, na modernidade, uma diferença muito clara entre o que era fato e o que era opinião, entre o que era fato e o que era a percepção.

 

Hoje em dia, a gente questionou tanto essa noção da objetividade, a gente enfatizou tanto que a forma como a gente olha as coisas afeta a própria substância das coisas, que a fronteira entre o que é fato, que é opinião, o que é observação, o que é evento, ela tá muito questionada. Isso quer dizer que, mesmo o que a gente pode chamar de fato-objetivo é algo que, nesse momento, a gente tem colocado uma interrogação em cima.

 

Agora, a mentira tem uma coisa diferente, porque uma coisa é eu dar uma informação errada, por erro, né? Eu não entendi, achei que achei que Buenos Aires fosse a capital do Brasil e não é. Isso não é em si uma mentira, isso é uma informação errada. Agora, a mentira procura induzir a pessoa a acreditar em algo que não é verdadeiro para me trazer algum tipo de vantagem. E daí dá para fazer isso de duas maneiras: A primeira é, vamos pensar nas fake news, agora estou me concentrando um pouquinho na segunda parte da sua provocação, nas fake News. Posso ter dois caminhos né, o primeiro caminho eu divulgo…

 

Então, vamos pegar Fake News. Tem dois jeitos, tem outros também, mas vamos nos concentrar em dois jeitos de propagar uma Fake News. Primeiro você divulga propositalmente uma narrativa que você sabe que é falsa. você inventa um fato, você faz a montagem de uma foto, você imita a voz de alguém né. Agora nesses casos para que essa mentira funcione é preciso que ela tenha alguma semelhança né aos padrões de comportamento da pessoa que você quer atingir, porque se o intervalo for muito grande, é possível que muitas pessoas questionem se isso é verdade ou não.

 

Por exemplo, se eu chegar aqui e falar: Olha, Léo, você ficou sabendo que o presidente do Palmeiras vai emprestar o elenco de graça para o Corinthians. O pessoal vai dizer que isso aqui não pode ser verdade, porque há um desvio muito grande do padrão de comportamento que a gente vê nesses atores, na rivalidade entre os clubes.

 

Então, o primeiro passo para fazer fake News é você falar o que é falso, mas para que isso funcione você tem que de alguma maneira se enquadrar na moldura de comportamento que aquele ator tem. Agora, o segundo modo que é bem mais sutil e eu acho bem mais perigoso né que é mentir dizendo a verdade. O Caetano Veloso fala isso né. “você diz a verdade e a verdade é seu dom de iludir”. Embora a afirmação em si seja verdadeira né O que você quer é fazer com que as pessoas acreditem a partir dessa informação verdadeira em algo que é falso.

 

Por exemplo eu posso brincar com você, eu posso pensar a seguinte Manchete: “Léo Lopes é visto em casa de traficante” certo, Poxa vida. pode estragar sua reputação. Essa informação podia ser verdadeira, mas é que eu estou negando a informação complementar que você tava lá acompanhando uma batida policial para ver se tudo estava sendo feito de acordo com a lei. Se não tava tendo nenhum desrespeito aos direitos daqueles estavam sendo investigados. você foi lá para fazer uma coisa super boa supermeritória, que é garantir um justo processo para as pessoas e a manchete te coloca como se você fosse alguém que tava na prática ilegal.

 

Então essa é uma coisa muito mais perigosa porque se você vai buscar informação, “ele tava, não tava?” Ele estava, mas esse não é o ponto, o ponto que você não estava realizando o ilícito que essa informação verdadeira procure insinuar que você tava. As fake News utilizam isso demais e esse é o grande perigo.

 

LOCUTOR: Não só as fake News, na verdade, né? Notícias reais também utilizam isso que são as chamadas as manchetes clickbait, que elas tão falando a verdade de uma maneira que atrai aquele clique, atrai o leitor e, muitas vezes, você vai ler o contexto da notícia e aquilo, sim, tem uma relação com o que está sendo falado, mas de uma maneira totalmente deturpada, né?

 

GHIRARDI: Exatamente, isso eu vejo e é incrível né porque ainda mais agora nessa competição dos meios de comunicação para ter clique, para dar Like. Você precisa ter um produto atraente então um produto atraente em geral é um escândalo, absurdo, alguma coisa assim, e quando as vezes a realidade é muito mais complexa e desmente até o que o próprio título traz. Na imprensa profissional isso é uma questão ética que está sendo enfrentado e discutida não é porque realmente muito forte agora infelizmente essa proliferação de blogs e às vezes até de blogs profissionais para espalhar fake News fica difícil conter isso.

 

Um antídoto, no meu modo de ver, não é controlar quem espalha notícia, mas educar quem recebe a notícia. A gente tem condição de entender que aquilo não pode ser verdade, ou não deve ser verdade. Que se o fato for verdade, ele quer dizer outra coisa, isso é um processo de educação cívica que nós temos que ter.

 

LOCUTOR: Perfeito. Professor, eu queria falar um pouco sobre ficção, porque eu tenho uma frase, eu não sei de quem é essa frase, mas eu vivo repetindo. Eu Gosto bastante dela, dizendo que “a principal diferença entre a realidade e a ficção, é que a ficção precisa fazer sentido”. Eu não sei de quem é essa frase, enfim, mas é uma situação que nos meus programas, eu vivo falando. Os grandes autores da literatura, os grandes autores de ficção, eles eram ou são grandes mentirosos, na sua opinião?

 

GHIRARDI: Na minha opinião de jeito nenhum, A fantasia não tem nada a ver com a mentira, e também não tem nada a ver com a verdade essa é grande beleza da fantasia, né.

 

É por isso que ela nos ajuda tanto, né? Elas lidam com o verossímil nos seus próprios termos, que ela enuncia. O Coleridge fala que que toda vez que a gente olha para uma obra de arte, a gente tem o Suspension of disbelief, que é a suspensão da descrença. Quando a gente está assistindo “Matrix” ou quando está assistindo “A Bela e a Fera” ou quando você está assistindo “Romeu e Julieta” sua pergunta não é: “isso é verdade?”. Essa não é a pergunta que se põe, ou a Guerra nas Estrelas, a pergunta que a gente se coloca é: “nos termos propostos pela própria narrativa, Isto é crível?” e quando isso ocorre, essa grande beleza. a gente vê que várias narrativas, completamente diferentes, podem ser igualmente críveis e a beleza disso, Léo, é que nossas vidas são narrativas também.

 

E, portanto, nós podemos ter narrativas completamente diferentes cada uma com a sua beleza cada uma coisa credibilidade e acho que essa é um grande ganho que a literatura nos faz ver.

 

Que nos nossos próprios termos, nós podemos ter uma verdade muito bela, muito complexa, mas que não necessariamente eu preciso impor essa forma de verdade ao outro. Então, os poetas não são mentirosos e eles não falam mentiras, eles vivem a fantasia e a fantasia é completamente diversa da mentira e da verdade, e por essa noção de sentido diverso das duas é que ela é tão humana de certa maneira.

 

LOCUTOR: Professor, mas apesar da ficção não ser necessariamente mentira, como o senhor acabou de falar, a gente tem aí na bibliografia da ficção grandes e famosos mentirosos. Personagens astutos, que ficaram famosos e, inclusive, pela sua habilidade em mentir. E um bom mentiroso, ele só é mentiroso, a partir do momento que ele passa uma credibilidade. Ele fala aquela mentira com uma credibilidade, com uma confiança, tão grande que, nossa, falando dessa maneira é impossível que isso não seja verdade. O senhor pode pontuar um pouco sobre a postura de alguns desses personagens, dar alguns exemplos disso aqui para a gente, no nosso podcast?

 

GHIRARDI: Meu favorito nessa sua colocação ali seria o Iago, do Otelo. O Iago é o campeão mundial das meias-verdades. Ele conduz o Otelo acreditar numa mentira basicamente só falando verdade, ele raramente diz algo que não é exato até porque se ele for pego ele está, tem problemas mas o que ele faz é criar uma narrativa como você colocou a pouco criar uma narrativa com fatos verdadeiros, que molde a percepção do Otelo, para achar que Desdemona é infiel.

 

Ele faz isso, apenas fazendo com que Otelo Perceba o mundo de determinada maneira, ele é realmente genial nisso. É engraçado, a gente odeia o Iago e ao mesmo tempo adora o Iago, porque ele é muito bom em ser mal né, e as bruxas de Macbeth fazem a mesma coisa. Elas atiram para o Macbeth afirmações que são em si verdadeiras ou críveis. E ele cai na esparrela porque ele quer acreditar naquilo que tá ouvindo.

 

O Mefistófeles faz a mesma coisa com o Fausto, e por isso que o Fausto tem um destino tão trágico. Eu acho que se a gente pensar, não em termos de falar, mas em termos de atitude, que também é outro jeito de mentir, mentir pela ação, não mentir pela palavra. O Dorian Gray é a personificação da mentira. O Dorian Gray, ele é socialmente uma coisa e no mais profundo dele mesmo é o oposto. Acho que é muito interessante, que a literatura nos permite talvez dizer algo quase como brincadeira que os bons mentirosos quase nunca mentem, mas sempre enganam. Então, acho que isso. na literatura, fica muito claro e como ela é uma narrativa cheia de nuances, ela nos ajuda a ver essa capacidade de ver a verdade se transformar em mentira apenas pela forma como a gente molda essa argila.

 

LOCUTOR: A gente ouve muito, professor, que uma mentira dita várias vezes, ela acaba se tornando uma verdade, né? Muitas vezes, a gente vive isso até na nossa vida. A gente acaba, muitas vezes, contando uma situação que não foi bem daquele jeito. Mas “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Hoje nós estamos aqui, adorando os ditados e provérbios, mas enfim, uma história dita muitas vezes ela acaba se tornando uma verdade. Até que ponto essa máxima, ela corresponde à realidade? E o senhor tem alguma passagem, seja na literatura ou mesmo algum episódio do meio jurídico, que ateste que realmente é assim?

 

GHIRARDI: Você me fez lembrar, Léo, da frase do Cidadão Kane, “se a versão for melhor que o fato, publique a versão”. Essa questão de uma mentira repetida se tornar verdade, ela aparece muito nas distopias. Me vem à cabeça o George Orwell, ele trabalha essa ideia na “Revolução dos Bichos”. As ovelhas ficam gritando tudo aquilo que o líder quer que se torne verdade e elas ficam gritando e gritando sem parar sem parar uma frase em geral curta e muito banal, mas que de tanto as ovelhas repetirem exaustivamente as pessoas vão aceitando como verdadeiro né. E em “1984” também, ele lida um pouco com essa questão só que de uma maneira um Pouquinho diferente.

 

No campo jurídico, Léo, nós tivemos uma situação muito triste, essa foi trágica mesmo. Você deve lembrar, você é mais jovem, mas deve lembrar do caso da escola base em 1994. Os proprietários da escola, eles tinham uma escolinha para criança, criança bem pequenininha, de uns 3, 4 anos, e por algum motivo correu a notícia de que eles drogavam as crianças e abusavam sexualmente das crianças.

 

A imprensa caiu nisso matando porque é um tema que atrai a atenção enormemente né, o delegado parece que se sentiu, talvez, um pouquinho pressionado. Claro, por todo esse frenesi da mídia e o inquérito foi em frente, e só depois o inquérito foi arquivado pelo promotor. Mas no meio tempo, é tudo mentira, era absolutamente mentira, não tinha um traço de realidade nas acusações.

 

Mas de tanto sair nas manchetes, de tanto sair em vários tabloides e em jornais sérios também as afirmações, as pessoas começavam a se perguntar: “bom, alguma coisa deve ter não é possível, não iam inventar as coisas assim”, e de fato foi o que aconteceu. Aquele frenesi midiático transformou em verdade uma acusação pavorosa e que não tinha nada a ver com a conduta dos imputados. Esse é um dos exemplos clássicos de como essa inconsequência, essa precipitação em passar informações que a gente não verifica, podem destruir muito concretamente a vida dos seres humanos.

 

LOCUTOR: O senhor estava falando de George Orwell, eu me lembrei de uma pessoa que tem o nome até parecido com ele que é o Orson Wells, que foi exatamente agora, em outubro né de 2018, 80 anos daquela transmissão,  que ele fez a dramatização para o rádio, da Guerra dos Mundos, do HG Wells.

 

Foi um Frenesi porque era uma dramatização e muita gente que pegou a transmissão da metade não sabia do que estava acontecendo, achava que o mundo realmente estava sendo invadido por marcianos e aquela peça de ficção acabou gerando uma situação, né, indescritível de desespero, enfim, de muitas coisas que acabaram acontecendo por consequência daquilo. E é uma prova de que como algo que foi pego, dependendo do contexto, da maneira como aquilo aconteceu, se interpretado como verdade, pode ter consequências terríveis, como esse caso obviamente da escola base, que enfim teve um prejuízo tão grande para essa família, né?

 

GHIRARDI: Exatamente, por isso que a gente tem hoje aí na política né, a política é fundamentalmente uma guerra de narrativas, é uma guerra de narrativas. se não fosse por isso a gente não tinha os publicitários e os caras que cuidam da propaganda eleitoral se entupindo de dinheiro assim. Os caras ganham esse dinheiro que eles ganham, porque a classe política tem toda a clareza de que o acesso ao poder passa pela vitória na guerra de narrativas e dizer que um governo Foi bom ou foi ruim, foi melhor ou foi pior, não deriva imediatamente das ações que foram realizadas, deriva fundamentalmente da narrativa que você utiliza para enquadrar essas ações específicas e isso é fundamental inclusive para gente avaliar nossa própria qualidade de vida. Em parte, o que nós sofremos hoje no Brasil é que nós tínhamos uma narrativa muito positiva algum tempo atrás sobre o futuro do país e essa narrativa agora deu lugar a uma narrativa muito pessimista ao discurso do país. Não necessariamente aquele otimismo e esse pessimismo estão igualmente ancorados em fatos. Mas isso importa pouco para a sensação que a gente tem nossa própria vida, o que importa para a gente a história que nós contamos sobre a nossa própria vida.

 

LOCUTOR: Professor, eu queria fazer aqui uma fusão dessas duas especialidades que o senhor tem. Doutor em estudos linguísticos e literários, e ao mesmo tempo é professor de direito. Saindo um pouco da literatura e trazendo um pouco para área jurídica, que a gente sabe que o cerne é a busca constante da Verdade, quer dizer, procura-se eliminar as mentiras e com isso chegar no fato em si, na verdade, para que se faça a justiça, né? Então, de que maneira o seu estudo no campo da literatura ajudou, ou se é que ajudou de alguma maneira, o senhor a identificar mentiras no campo do direito, a se aproximar da verdade para que essa questão da justiça realmente aconteça na questão jurídica?

 

GHIRARDI: Essa colocação é particularmente importante, eu acho. Eu diria, Léo, que uma primeira coisa que o trato com o texto literário nos ensina é que se você quer chegar a verdade, você não pode ter pressa. Se você tá lendo por exemplo Dom Quixote, você não pode ter na página 4, já uma noção do que significa aquilo tudo, você tem que ter paciência, a humildade de ler o texto, de escutar o texto, de escutar suas diferentes matizes, as diferentes vozes que estão ali. então uma primeira coisa que a gente precisa ter quando vai tentar descobrir o que é a verdade para poder produzir a justiça é paciência, ou seja, para esperar ter um acesso mais amplo ao que está nossa frente.

 

Segundo, humildade para ouvir todas as vozes que estão ali, algumas irão nos atrai mais, mas nós temos que ouvir também as que nos atraem menos. Acho que uma coisa que a literatura ajuda profundamente é que você fica o tempo todo buscando a consistência interna daquele relato há relatos atraentes mas se você olha com mais vagar, você percebe que há inconsistências internas que não que não permitem que ele pare de pé né então eu acho que essas três coisas são muito importantes.

 

Primeiro é a paciência a gente tá muito apressado para chegar a conclusões, a gente tem que olhar as coisas com o certo vagar porque o nosso olhar assim como quando a gente sai da Luz para a Escuridão, a nossa retina demora um tempo para se adaptar ao novo ambiente também quando a gente tem um novo caso uma nova situação o nosso intelecto demora um tempo para se adaptar às tensões que são específicas daquele caso e nós precisamos ter um pouco de paciência para isso, não ser muito apressado para chegar a conclusões.

 

Segundo, essa humildade de ouvir todas as vozes atenção para saber que nenhum texto, nenhuma narrativa, nenhuma questão jurídica, nenhum caso tem só um lado, só uma parte e nem só dois. São muitos que estão ali e a gente precisa ser capaz de ouvir no máximo de nossa habilidade.

 

E terceiro, buscar sempre uma consistência interna de todos esses discursos que se entrecruzam. Se a gente conseguir fazer isso a gente poderá errar algumas vezes, mas acho que o mais das vezes a gente consegue boas soluções e pelo menos a gente adota um ponto de vista que parece ético, que significa o nosso compromisso em ser verdadeiros na forma de tratar as coisas. Às vezes, a gente não vai conseguir um resultado melhor, mas conseguir manter o compromisso ético de buscar sinceramente a verdade, isso tá em nosso alcance E isso não é pouca coisa.

 

LOCUTOR: E quando precisamos identificar uma mentira que ainda não se confirmou como tal? Muitas vezes isso acontece no dia a dia. Por exemplo, os profissionais da área de finanças e tecnologia, na maior parte da sua rotina, atuam com informações que ainda não são nem verdades e nem mentiras.

 

Professor, existe na literatura alguma passagem que possa inspirar quem está vivendo isso agora, onde não se tem todos os elementos para dizer que determinada coisa é mentira ou verdade?

 

GHIRARDI: Isso é uma questão muito importante e tem, porque, como se diz, a busca da verdade é uma busca do cotidiano, então há algo de provisório na verdade também, a gente não tem uma clareza de como vai ser a vida inteira. Se você pegar, para dar um exemplo literário aqui, se você pensar “A Odisséia”, Ulisses tentando voltar para casa, ele tem que tomar decisões a cada momento ali, a cada momento há uma configuração de verdade naquele momento ele tem que optar por uma versão de verdade que permita a ele agir. Ele está perfeitamente consciente que já na próxima praia as coisas podem ter mudado, se aquela verdade não é definitiva. Mas isso não quer dizer que naquele momento ela não funcionasse como verdade então acho que nós temos dois pontos aí. Nós temos uma questão que é uma verdade mais metafísica, mais eterna, tem a ver com grandes questões, mas da nossa vida cotidiana todos nós temos que agir com as informações que nós temos em mão.

 

Então, eu acho que essa saga do Ulisses, é um pouco a saga de todos nós. Nós temos que ter coragem de optar por uma versão de verdade naquele momento da nossa vida, naquele momento da nossa atuação profissional, ainda sabendo que ela é provisória que ela está em construção ainda né.

 

LOCUTOR: Excelente. Professor, a gente está chegando no final do nosso Fintech Labcast. E antes de agradecer a sua presença, eu quero perguntar se o senhor teria uma mensagem ou alguma passagem literária que deixasse uma mensagem positiva sobre esse tema. Eu não sei se é possível ou não, tem alguém que tenha feito um bom uso da mentira?

 

GHIRARDI: Olha, se você me permite, Léo, eu vou utilizar essa oportunidade ótima para ler um dos meus poemas favoritos do Fernando Pessoa, ele é breve e eu gosto muito, e lá vai ele:

 

“”Olá, guardador de rebanhos,

Aí à beira da estrada,

Que te diz o vento que passa?”

“Que é vento, e que passa,

E que já passou antes,

E que passará depois.

E a ti o que te diz?”

“Muita cousa mais do que isso.

Fala-me de muitas outras cousas.

De memórias e de saudades

E de cousas que nunca foram.”

 

 

“Nunca ouviste passar o vento.

O vento só fala do vento.

O que lhe ouviste foi mentira,

E a mentira está em ti.”

 

Esse poema do guardador de rebanhos, que é o poema X (dez) de Alberto Caeiro né. Eu acho que nos ajuda a isso, a estar sempre atentos quando a gente tá muito convicto de que sabe como o mundo é, sabe como as pessoas são, como a gente sente muito pronto a julgar os outros, porque nós sabemos a verdade os outros tão no erro.

 

A gente tem que lembrar do guardador de rebanhos e desconfiar que, muitas vezes, o que a gente está vendo, vem da mentira e a mentira tá na gente mesmo. Então, esse sentido pedagógico de saber que nós temos uma mentira que insiste em nos constituir por dentro, eu acho que pode ser algo muito bom para a gente ir para frente.

 

LOCUTOR: Excelente! Muito obrigado, Professor José Garcez Ghirardi, foi o nosso primeiro convidado do Fintech Labcast. Foi uma honra conversar com senhor, ou não, talvez, quem sabe.

 

GHIRARDI: Olha, para mim, com certeza foi uma honra e foi uma alegria enorme. Essa é a minha verdade, ainda que provisória e em construção, mas no dia de hoje foi grande alegria.

 

LOCUTOR: E assim nós terminamos esse episódio do Fintech Labcast. Fique atento aos próximos episódios, que você pode ouvir tanto no Spotify, como no Apple podcast, no agregador de Podcast da sua preferência, ou também no site fintechlabcast.com. O Fintech Labcast tem o patrocínio do Saxo Bank, há 25 anos transformando a maneira de investir, oferecendo acesso global ao mercado de capitais. A gente se encontra no próximo episódio, contamos com seu download e com a sua audiência, um abraço e até lá.

 

 



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